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O BANQUEIRO DOS POBRES! - GENTE MORRENDO DE FOME

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A aldeia de Jobra: Dos manuais à realidade

 

O ano de 1974 marcou-me como nenhum outro. Foi o ano da terrível fome que se abateu sobre Bangladesh.

A imprensa publicava reportagens terríveis, divulgando o número de mortos e de desnutridos nas aldeias distantes e nas capi­tais regionais do norte. A universidade onde eu exercia as funções de chefe do departamento de economia se situava na extremidade sudeste do país, e num primeiro momento não demos muita aten­ção ao fato. Mas começavam a surgir nas estações ferroviárias de Daca [capital de Bangladesh] homens e mulheres esqueléticos. Pouco depois, mortos. De ca­sos isolados passamos para um fluxo ininterrupto de famintos a in­vadir Daca.

Eles estavam por toda parte. Era difícil distinguir os vivos dos mortos. Homens, mulheres, crianças: todos se pareciam. Sua idade também era algo insondável. Os velhos tinham aspecto de crianças, as crianças pareciam velhos.

O governo providenciou pontos de distribuição de sopa para os pobres, mas o alimento se esgotava muito antes de ser servido a todos.

Os jornalistas tentavam alertar a opinião pública. Institutos de pesquisa procuravam reunir informações quanto à origem dos fa­mintos e suas possibilidades de sobrevivência.

Organizações religiosas se esforçavam por juntar os corpos a de lhes oferecer uma sepultura decente. Mas os cadáveres se acumulavam num ritmo tão acelerado que foi preciso rapidamente de­sistir da idéia.

Era impossível não ver esses famintos, impossível ignorar a sua existência. Eles estavam em toda parte, esguios, muito calmos.

Não gritavam nenhum slogan. Nada esperavam de nós. Es­tendidos na entrada de nossa casa, não nos condenavam por estarmos bem alimentados, a salvo da necessidade.

Morre-se de muitos modos, mas a morte por inanição é a mais inaceitável. Ela acontece lentamente. Segundo após segundo, o espa­ço entre a vida e a morte se reduz de modo inapelável.

Num determinado momento a vida e a morte ficam tão próxi­mas que se tornam quase indistintas, e não se sabe se a mãe e o filho, prostrados ali no chão, ainda estão entre nós ou já partiram para o outro mundo. A morte sobrevém a passos tão silenciosos que não percebemos a sua chegada.

E tudo isso pela falta de um punhado de comida. Em torno desses famintos as pessoas matam a fome, mas eles não. O bebê cho­ra, depois acaba por dormir, sem o leite de que precisa. Amanhã tal­vez ele já não tenha a força necessária para chorar.

Lembro-me de meu entusiasmo ao ensinar as teorias econômi­cas, mostrando que elas apresentavam respostas para problemas de todos os tipos. Eu era muito sensível à sua beleza e elegância. Mas de repente comecei a tomar consciência da inutilidade desse ensina­mento. Para que poderia ele servir, quando as pessoas estavam mor­rendo de fome nas calçadas e diante dos pórticos?

A partir de então comecei a achar que minhas aulas eram uma sala de cinema onde podíamos relaxar, tranqüilizados pela vitória certa do herói. Eu sabia desde o início que todo problema econômi­co encontraria uma solução elegante. Mas a partir do momento que saía da sala de aula me confrontava com o mundo real. Lá os heróis eram moídos de pancadas, selvagemente pisoteados. Via a vida coti­diana tornar-se cada vez mais dura e os pobres ficarem cada vez mais pobres. Para eles, morrer de inanição parecia ser a única saída.

Assim, onde estava a teoria econômica que dava conta de sua vida real? Como continuar a contar histórias de faz-de-conta a meus alunos em nome da economia?

Eu só tinha um desejo: sair pela tangente, abandonar os manuais, fugir da vida universitária. Queria compreender a realidade que cerca a existência de um pobre, descobrir a verdadeira economia, a da vida real –e, para começar, a da pequena aldeia de Jobra.

Jobra ficava perto do campus; mais precisamente, a universidade tinha sido construída perto da aldeia...

Muhammad Yunus

Banco Grameen, 10 de Julho de 1997.

(O Banqueiro dos Pobres - Editora Ática, 2000)

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Para mim, é impossível ler isso e não lembrar que é assim também no Brasil e em vários lugares do mundo. Só não vê que há algo errado com muitas das nossas teorias quem se recusa a ver ou desvia o olhar da vida real. As palavras de Jesus tornam-se tão fáceis de entender para quem não se nega a olhar.

A história de Yunus – O Banqueiro dos Pobres, continua. Através dela, espero que você veja como Deus age fora dos ambientes dos templos religiosos e, quase sempre, em confronto com os senhores da religião e da cultura.

 

Bjs   Bento


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